Dia desses escrevi uma newsletter para os meus clientes falando sobre essa coisa de ser uma estilista pequena, independente, com trabalho ético, depois que duas marcas de amigos próximos encerraram suas atividades e eu fiquei com o coração partido porque acredito profundamente no poder transformador da moda, e quis trazer uma reflexão sobre essa história do pequeno negócio, do artista e do manual.

Talvez você já saiba (ou esteja descobrindo agora) mas eu sou faz-tudo na Lusco Fusco. Tenho costureiras e artesãs incríveis que trabalham comigo na produção das roupas, mas o resto todo sou eu quem faz: crio, faço os moldes, escolho-compro-separo os tecidos e aviamentos, corto todas as peças, levo e busco nas costureiras/artesãs, organizo a loja virtual e cuido do estoque das lojas físicas, cuido do financeiro, das redes sociais, de falar com os clientes, levo a marca para os eventos, vou nos Correios, passo roupas, penso nas fotos, no blog, no podcast, sirvo cafezinho e passo a vassoura no ateliê. Eu que assumo os riscos e resolvo todos os pepinos. E pago, pago, pago tudo (quando alguém compra uma roupa da Lusco Fusco, TUDO já está pago — material, costureiras, embalagens, mesmo que eu vá receber só em 30–60–90 dias). Ufa! Quando eu paro para escrever que faço tudo isso, até duvido como consigo encaixar tudo isso com meu trabalho de professora e mais 8hs de sono.

Digo com toda certeza do mundo que trabalho antes de tudo por acreditar mesmo que é possível fazer moda de outro jeito, mas eu entendo quando uma pequena marca acaba, porque ser estilista de forma independente é difícil e muito trabalhoso. E o dinheiro, nossa principal forma de troca, às vezes demora a chegar. Muitas vezes as pessoas não entendem porque uma roupa nossa custa X “quando na marca tal é metade do preço”. E elas compram na marca tal, que é mais barata mas usa matéria-prima de qualidade inferior, paga mal seus colaboradores, tem processos de produção nocivos ao meio-ambiente, produz roupas quase descartáveis, mal feitas, cópias de estilistas que tiveram tanto cuidado e dedicação em trabalhos autorais. A verdade é que as pessoas enxergam a roupa como commodity e simplesmente não pensam sobre o que compram. É a tal história das crianças que hoje em dia acham que a água vem da torneira.

Por isso hoje escrevo para te perguntar: suas escolhas são ativas e conscientes? Você pensa em quais processos e pessoas estão por trás daquela marca antes de comprar? Quem você quer ver crescer? Eu sei que pode parecer repetitivo eu falar isso, mas o dinheiro é troca de valor muito além do monetário — através dele eu digo que mundo eu quero. Apoiar marca X ou Y diz muito sobre quem somos. Eu tenho poder de escolha — ainda bem! Mas é preciso usá-lo com consciência.

Então faço um pedido, em meu nome e dos meus amigos que fecharam suas marcas (sei que eles estão chateados por isso): compre e apoie as marcas que você quer ver existir enquanto elas existem! Pague pela roupa/projeto/arte/música/desenho do seu amigo, do criador e da artista que fazem algo que você admira, que conversa com seus valores de vida. Depois que uma marca fecha por falta de recursos não adianta dizer o quanto aquelas criações eram bacanas. Dê flores aos vivos: invista no talento dos artistas agora, porque mortos e negócios fechados não precisam mais de dinheiro. Van Gogh que o diga.


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Moda independente e o poder do dinheiro
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