Há 6 anos, em 24 de abril de 2013, mais de 1100 pessoas morreram e 2500 ficaram feridas no desabamento do complexo fabril Rana Plaza, em Dhaka – Bangladesh. Famílias arrasadas, milhares machucados, morte – e muito dinheiro envolvido. No Rana Plaza funcionavam diversas confecções que produziam para conhecidas marcas de fast-fashion. Os trabalhadores do local já haviam avisado aos supervisores sobre as condições precárias do prédio, mas sempre eram obrigados a voltar. Após essa tragédia deu-se início o Fashion Revolution, movimento mundial que reivindica uma indústria da moda mais transparente, justa e honesta, com condições dignas de trabalho e respeito pelas pessoas e pelo planeta.

A verdade é que a maioria das pessoas não sabe a origem das roupas que compra – e muitos realmente não se importam. Vivemos inseridos em um sistema capitalista onde somos validados pelas coisas que podemos comprar – e a roupa, como um grande validador social que é, é um prato cheio de exploração. Nos ensinaram que podíamos comprar roupas baratas, que não era problema. Não nos contaram o que havia por trás de preços inacreditáveis.

Quem faz nossas roupas?

Roupas não se fazem sozinhas, não saem prontas magicamente de uma máquina – são feitas por pessoas como nós, em sua arrebatadora maioria mulheres ( 75% dos trabalhadores na indústria têxtil brasileira são mulheres e 85% no mundo, apesar de elas ocuparem nem 25% dos altos cargos de chefia das empresas de moda), as pessoas se esquecem disso e as marcas fazem questão de não nos lembrar que por trás das roupas há um ser humano, afinal, não é bom para os negócios que os consumidores relacionem preços baixos a pagamentos ínfimos, que é o que de fato acontece: para uma roupa ser barata não é o lucro do mega empresário que diminui, e sim o pagamento dos funcionários que é reduzido.

Se você olhar as etiquetas das roupas nas lojas de fast-fashion verá que a grande maioria delas é produzida na China, Índia, Bangladesh e outros países em desenvolvimento e apesar do Brasil ser a 3º maior indústria têxtil do mundo seguimos comprando roupas feitas por pessoas do outro lado do planeta e que não temos ideia de quem são. A produção nesses países asiáticos se dá pelos custos serem significativamente inferiores já que praticamente inexistem leis trabalhistas que preservem os trabalhadores e assim o trabalho análogo à escravo é prática recorrente. Você consegue se imaginar trabalhando por menos de 3 dólares por dia? (o que daria menos de 300 REAIS por mês?) E as mulheres são as mais vulneráveis, pois muitas têm filhos, questões familiares, baixa escolaridade e muito medo de repressão: problemas que as mulheres convivem diariamente são expressivamente maiores, com uma dose cruel de ambientes insalubres e jornadas de trabalho excessivas.

Mas a gente não vê. E se não vê, acha que não existe. É preciso estourar a bolha cor-de-rosa e enfrentar o problema, porque moda não é só o glamour que querem nos fazer acreditar.

E as roupas produzidas no Brasil?

Muita gente já está careca de saber das condições de trabalho precárias em alguns países, mas como é aqui, em terras tupiniquins? Trabalhei em confecções durante alguns anos e posso dizer que a situação não é tão ruim, mas também não é lá muito boa. Horas extras que são pagas em bancos de horas e nunca em dinheiro, produções maiores do que deveriam ter sido aceitas, muita pressão e cobranças extremas, incentivo à competitividade ao invés de colaboração, péssima política de mediação de conflitos, ambientes de trabalho precários, pouca prevenção de acidentes, uso mínimo de equipamentos de segurança, negligência com a saúde dos trabalhadores, salários e benefícios baixos, muita informalidade e terceirização da terceirização. Apesar de termos o CLT que assegura direitos básicos e o país ser referência no combate ao trabalho escravo, ainda temos um longo caminho a trilhar até o ideal – tanto para grandes como para pequenas confecções ( que aliás, são a maioria e que movimentam a maior fatia do mercado de moda nacional. E aqui não estou falando dos pequenos estilistas independentes que eu sempre defendo, mas das confecções de fundo de quintal, de bairros como Brás e Bom Retiro).

Fala-se muito em comprar roupas produzidas no Brasil, e isso é muito importante sim, mas onde essa roupa foi feita? Em quais condições? Respeitou-se o trabalhador? Ou foi costurada por um estrangeiro em situação vulnerável como é o caso de muitas mulheres imigrantes em São Paulo? Não há uma resposta simples para um problema complexo como é a questão trabalhista, que está profundamente ligada às questões de gênero, raça e condição social, mas como consumidores precisamos questionar e pressionar as marcas para serem cada vez mais transparentes sobre seu processo produtivo e o por quê de determinadas escolhas. Fechar os olhos e fingir que não é com a gente não dá mais.

Proteção ambiental: o que estamos fazendo com a nossa casa?

Falar sobre uma revolução na moda é falar de várias vertentes, todas interligadas e todas complexas. Antigamente as pessoas não compravam roupas loucamente como agora, havia um cuidado, as roupas eram feitas com materiais melhores, duravam mais tempo, as pessoas tinham mais cuidado, não era essa insanidade de comprar uma blusinha nova para cada final de semana. As marcas e os estilistas criavam duas coleções por ano, a velocidade era outra. E então chegou o fast-fashion (que nada mais é do que um reflexo do nosso tempo, não vamos tapar o sol com a peneira) e resolveu criar muitas coleções anuais e instigar ainda mais o desejo pelo novo, pelo se sentir aceito, pelo aparentar.

Mas isso tem um custo. E bem alto.

Todo ano sai o Dia de Sobrecarga da Terra, que é o dia no ano que estamos trabalhando no negativo, consumindo recursos naturais que só poderiam ser utilizados no ano seguinte. A cada ano esse dia chega mais cedo. Estamos tirando mais da terra do que ela pode nos dar, tratando-a como uma linha de produção. Na moda, os problemas ambientais em decorrência desse modelo extrair – consumir – descartar são enormes: uso indiscriminado de agrotóxicos nas plantações de fibras naturais, sementes geneticamente modificadas nas mãos de grandes corporações, perda de biodiversidade pela monocultura e uso irresponsável de pesticidas, florestas derrubadas, consumo de água absolutamente irresponsável não só nas plantações, mas na produção de couro, tingimentos e outros beneficiamentos, águas cheias de químicos despejadas nos rios e oceanos sem qualquer tratamento, produções enormes, muito além do necessário, incineração de estoques não vendidos, toneladas de resíduos têxteis que sobram da produção e são descartados de qualquer forma, jeito de produzir linear e não cíclico. Muitos problemas. Muitas soluções que requerem sair da zona de conforto, abrir mão de privilégios e atuar coletivamente.

Como fazer escolhas melhores afinal?

As roupas não existem sem as pessoas para vesti-las, assim como as marcas não se mantém sem os clientes. Os problemas que precisamos enfrentar por uma indústria da moda mais digna e transparente são enormes e passam não só pelas nossas escolhas de compra, mas também por políticas públicas e pressão da sociedade, mas a cartada final é sempre do consumidor – onde eu coloco meu dinheiro? E aqui eu não falo só em comprar produtos melhores, porque nem tudo na vida se resume ao que podemos comprar, mas também ao que dizemos ‘não’. Não posso falar só em comprar produtos éticos, mas inverter a lógica e dizer não para certas coisas, do contrário eu elitizo a sustentabilidade e digo que só existe um caminho e ele envolve dinheiro, mas não é bem assim. Superaremos a crise que vivemos, tanto na moda, quanto na vida, reinventando nosso pensamento.

Claro que comprar dos pequenos estilistas, das marcas que fazem roupas em um ritmo mais humano, que utilizam mão-de-obra local, produzem com tecidos reciclados ou orgânicos é o melhor dos mundos, mas sabemos que a vida e os desejos das pessoas são diferentes. Acredito sim, que a mudança começa localmente, ao consumirmos marcas próximas a nós, mas também comprar de brechós, trocar, emprestar, fazer suas próprias roupas, se informar, cobrar das marcas, se engajar. Existem muitos caminhos, precisamos encontrar aquele que se adeque melhor a nossa vida e o mundo que queremos ver nascer/crescer. Como diz Carvalhal, no livro Viva o Fim:

“Diante disso, o importante é aceitar que um novo mundo é questão de escolha. O futuro não está ali na frente. Ele já está misturado com o presente. É fruto de nossos/novos hábitos e atitudes, que possam contribuir para melhores cenários (…)”

Por fim, com mais questionamentos do que respostas, finalizo com mais uma frase do livro Viva o Fim:

“Há ainda pouquíssima gente disposta a bancar financeiramente a ‘nova era’, apoiando marcas e serviços que remunerem de maneira justa todos os envolvidos. Há pouca gente com informação e conhecimento sobre os custos envolvidos em negócios e produtos. Poucas marcas e pessoas dispostas a cooperar mesmo, seja por medo de concorrência, seja por falta de visão ou fé. Mas nem por isso sinto que precisamos desistir. Muito pelo contrário. Acho que estamos bem mais pra lá do que pra cá.”

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Fashion Revolution 2019: trabalho digno, proteção ambiental e igualdade de gênero
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